UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE PSICOLOGIA FACULDADE DE LETRAS FACULDADE DE CIÊNCIAS FACULDADE DE MEDICINA MINIMALITY AND MEMORY IN SYNTACTIC COMPLEXITY: AN EMPIRICAL INVESTIGATION INTO THE PROCESSING OF RELATIVE CLAUSES AND CONTROL STRUCTURES João Pedro Consciência Delgado MESTRADO EM CIÊNCIA COGNITIVA 2020 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE PSICOLOGIA FACULDADE DE LETRAS FACULDADE DE CIÊNCIAS FACULDADE DE MEDICINA MINIMALITY AND MEMORY IN SYNTACTIC COMPLEXITY: AN EMPIRICAL INVESTIGATION INTO THE PROCESSING OF RELATIVE CLAUSES AND CONTROL STRUCTURES João Pedro Consciência Delgado Dissertação orientada pela Professora Doutora Ana Luísa Raposo e coorientada pela Professora Doutora Ana Lúcia Santos MESTRADO EM CIÊNCIA COGNITIVA 2020 ii Agradecimentos A conclusão deste trabalho reforça o sentimento de gratidão que me acompanhou durante a sua realização e, de forma mais geral, durante todo o meu percurso académico. Às pessoas que me acompanharam neste percurso, deixo os meus agradecimentos. Começo por agradecer às minhas supervisoras, a Professora Ana Luísa Raposo e a Professora Ana Lúcia Santos, pelo apoio entusiástico na conceção e no desenvolvimento deste trabalho. O privilégio de ter trabalhado um tópico da Ciência Cognitiva que genuinamente me interessa deve-se não só à confiança que depositaram no meu projeto de mestrado, como ao esforço de colaboração interdisciplinar que mantiveram ao longo dos últimos dois anos.
Para mim, serão sempre modelos de como trabalhar em ciência com interesse, profissionalismo e espírito de equipa. Deixo um agradecimento especial ao Professor Paulo Ventura, que me deu a oportunidade de colaborar em diversos projetos de investigação e com quem aprendi a analisar problemas fundamentais da Psicologia à luz da abordagem experimental. A sua capacidade de tornar simples o que é complexo e a sua dedicação à construção de conhecimento novo, bem como o seu sentido de humor, serão sempre fontes de inspiração para mim. Deixo, também, agradecimentos especiais aos meus amigos e colegas “colaboradores old” - Miguel Ferreira, José Carlos Guerreiro, António Farinha-Fernandes e Bruno Faustino -, que muito admiro pessoal e profissionalmente.
Trabalhar convosco tem sido um privilégio! Agradeço ao Miguel Domingues e à Marta Pereira, pela amizade e pelas conversas estimulantes, ao Rodrigo Pereira, pelas partilhas, sempre interessantes, do seu conhecimento linguístico, e à turma de Ciência Cognitiva de 2016, com um agradecimento especial à Martina Silvestre e ao Luís Guerra, cujos sábios conselhos muito me ajudaram a crescer como estudante e pessoa. iii Agradeço, também, a todos os estudantes que tiveram disponibilidade para participar no meu estudo. Por fim, com todo o meu coração, agradeço ao meu irmão, aos meus pais e aos meus avós, pelo amor e apoio incondicionais. São o melhor de mim! iv Abstract Object relative clauses (OR) are harder to process than subject relative clauses (SR).
The complexity of OR has been attributed to intervention of the subject determiner phrase (DP) in the filler-gap dependency, either due to memory decay or interference, or as a consequence of grammatical restrictions on syntactic movement, based on Relativized Minimality (RM). Subject control (SC) structures with ditransitive verbs, but not object control structures (OC), parallel OR in instantiating a filler-gap dependency across an intervening DP. Therefore, it is a question of interest whether SC patterns like OR in terms of processing complexity. Memory accounts of OR complexity expect parallel complexity asymmetries between relative clauses and control structures, i.
greater processing difficulty with OR and SC than with SR and OC, respectively. Adopting the RM account of OR complexity, on the other hand, parallel asymmetries are expected only if control structures, like relatives, are derived via movement. In this study, 69 participants read sentences and answered comprehension questions in a self-paced reading task with moving-window display, comprising four experimental conditions: SR; OR; SC; OC. Furthermore, participants performed four supplementary tasks, serving as measures of resistance to interference, verbal knowledge, working memory capacity and lexical access ability.
The results from the reading task showed that, whereas OR were harder to process than SR, SC was not harder to process than OC, arguing against memory accounts of OR complexity and, adopting the RM account, a movement analysis of control. Furthermore, we found that, although resistance to interference, lexical knowledge and working memory capacity modulated certain aspects of the processing of sentences with relative clauses, OR complexity effects emerging in comprehension accuracy and reading times were not modulated by any of these processes. We thus conclude that OR complexity effects result from a functionally isolated grammatical process, based on RM. v Keywords: Relative clauses, control structures, intervention, minimality, working memory vi Resumo As orações relativas de objeto (RO) são mais difíceis de processar do que as orações relativas de sujeito (RS).
A complexidade das RO tem sido atribuída à intervenção do sintagma determinante (SD) sujeito na dependência filler-gap, quer devido a decaimento ou interferência em memória, quer em consequência de restrições gramaticais no movimento sintático, baseadas no princípio Relativized Minimality (RM). Tal como as RO, as estruturas de controlo de sujeito (CS) com verbos ditransitivos instanciam uma dependência filler-gap com cruzamento de um SD interveniente, o que não acontece nas estruturas de controlo de objeto (CO). Portanto, é importante perceber se o CS revela uma complexidade de processamento equivalente à das RO. As propostas de memória para a complexidade das RO esperam assimetrias de complexidade paralelas entre relativas e controlo, i.
maior dificuldade de processamento com RO e CS do que com RS e CO, respetivamente. Adotando a proposta de análise gramatical (RM) para a complexidade das RO, por outro lado, esperam-se assimetrias paralelas entre relativas e controlo somente se as estruturas de controlo, tal como as relativas, forem derivadas através de movimento sintático. No presente estudo, 69 participantes leram frases e responderam a perguntas de compreensão sobre essas frases numa tarefa de leitura automonitorada, em quatro condições experimentais: RS; RO; CS; CO. Para além da tarefa de leitura, os participantes completaram quatro tarefas suplementares, servindo de medidas de resistência à interferência, conhecimento lexical, capacidade de memória de trabalho e habilidade de acesso ao léxico.
Os resultados da tarefa de leitura mostraram que, enquanto as RO foram mais difíceis de processar do que as RS, o CS não foi mais difícil de processar do que o CO, o que vai contra as propostas de memória para a complexidade das RO e, adotando a proposta gramatical (RM), a análise de controlo como movimento. Além disso, mostrou-se que, apesar de certos aspetos do processamento de frases com orações relativas terem sido modulados pela resistência à vii interferência, o conhecimento lexical e a capacidade de memória de trabalho, os efeitos de complexidade das RO emergentes na precisão de resposta à questão de compreensão e nos tempos de leitura não foram modulados por nenhum destes processos. Assim, concluímos que os efeitos de complexidade das RO são resultado de um processo gramatical funcionalmente isolado, baseado no princípio RM. Palavras-chave: Orações relativas, estruturas de controlo, intervenção, minimalidade, memória de trabalho viii Resumo alargado As orações relativas contêm uma posição sintática vazia, ou gap, cuja interpretação depende do seu antecedente, ou filler.
Na gramática generativa, as dependências filler-gap em orações relativas são analisadas como instâncias de movimento sintático: assume-se que o filler é movido da posição argumental encaixada para uma posição superior onde é pronunciado, deixando uma cópia silenciosa na posição original. Enquanto nas relativas de sujeito (e. O músico que criticou o pintor) o movimento do filler parte da posição de sujeito da oração relativa, nas relativas de objeto (e. O músico que o pintor criticou) parte da posição de objeto da oração relativa.
Esta diferença estrutural está associada a uma assimetria de complexidade no processamento: as orações relativas de objeto são mais difíceis de compreender do que as orações relativas de sujeito, ainda que compostas pelas mesmas palavras. As orações relativas têm sido objeto de estudo intensivo na Psicolinguística e têm desempenhado um papel central na teorização sobre complexidade sintática. Vários modelos de complexidade recentes atribuem o custo de processamento das orações relativas de objeto à intervenção de certos constituintes na dependência filler-gap: quer referentes de discurso novos – Dependency Locality Theory (Gibson, 1998, 2000); quer sintagmas nominais semelhantes ao filler – modelos cue-based parsing (Lewis, Vasishth & Van Dyke, 2006); quer sintagmas nominais (mais precisamente, DPs) semelhantes ao filler e ocupando uma posição sintática que lhes confere o estatuto de potencial interveniente hierárquico (o filler c-comanda o interveniente e o interveniente c-commanda o gap) - modelos com base no princípio Relativized Minimality (Friedmann, Belleti & Rizzi, 2009; Costa, Grillo & Lobo, 2013; Rizzi, 2013). Portanto, é relevante saber se outras estruturas sintáticas que envolvem uma dependência filler- gap cruzando constituintes intervenientes induzem efeitos de complexidade idênticos aos das relativas de objeto.
ix Tal como nas relativas, a compreensão de estruturas de controlo requer resolução de uma dependência filler-gap, que é estabelecida entre um sintagma determinante antecedente (SD), ou elemento controlador, e a posição vazia de sujeito da oração encaixada. No controlo de sujeito (e. O músico prometeu ao pintor escrever), o elemento controlador é o sujeito da oração matriz, enquanto no controlo de objeto (e. O músico convenceu o pintor a escrever) o elemento controlador é o objeto da oração matriz.
Dada esta diferença, as estruturas com controlo de sujeito, contrariamente às estruturas com controlo de objeto, instanciam uma dependência filler-gap numa configuração de intervenção, justificando a hipótese de que estruturas com controlo de sujeito possam implicar custos adicionais de processamento. Tradicionalmente, a Gramática Generativa tem tratado o controlo como fundamentalmente distinto das orações relativas. Nas análises clássicas, propõe-se que as dependências filler-gap no controlo correspondem a uma relação obrigatória de correferência entre uma categoria vazia especial (PRO), que se assume ocupar a posição de sujeito da oração encaixada, e o SD antecedente (Chomsky, 1981). No entanto, Hornstein (1999) propôs recentemente uma análise de movimento para o controlo, aproximando o controlo das orações relativas.
As estruturas de controlo têm recebido cada vez mais atenção nos estudos de aquisição, em que se documenta um atraso na aquisição de controlo de sujeito com verbos ditransitivos (e. Agostinho, Santos & Duarte, 2018), mas têm sido negligenciadas na investigação Psicolinguística com adultos, pelo que ainda não é claro se a assimetria observável em termos de desenvolvimento corresponde a uma assimetria de custos de processamento observável na idade adulta. Neste estudo, procurámos avaliar a validade empírica das predições resultantes de explicações gramaticais e de memória para os efeitos de intervenção com relativas de objeto, comparando o processamento de orações relativas com o processamento de estruturas de x controlo. Especificamente, procurámos investigar se a assimetria prevista entre relativas de sujeito e relativas de objeto, com maior complexidade observável nas relativas de objeto, resultante da configuração de intervenção, tem um paralelo nas estruturas de controlo, esperando-se nesse caso uma maior dificuldade associada a estruturas de controlo de sujeito.
As explicações com base em questões de memória propõem que o efeito prejudicial da configuração de intervenção nas relativas de objeto resulta de princípios gerais da memória, como o decaimento (Dependency Locality Theory, Gibson, 2000) ou a interferência (cue-based parsing, Lewis, Vasishth & Van Dyke, 2006), que se aplicam de forma idêntica a estruturas de diferentes naturezas gramaticais. Aceitando as suposições dos modelos de memória, espera-se que as orações relativas e as estruturas de controlo revelem assimetrias de processamento paralelas. As explicações gramaticais, por outro lado, atribuem os efeitos de intervenção (neste quadro, intervenção é definida hierarquicamente) nas relativas de objeto ao princípio gramatical Relativized Minimality, que restringe a operação de movimento sintático quando há cruzamento de intervenientes (hierárquicos/sintáticos) (Friedmann, Belleti & Rizzi, 2009; Costa, Grillo & Lobo, 2013). Nesta abordagem, as previsões para o controlo dependem da sua natureza gramatical.
Adotando a análise de movimento de Hornstein (1999), espera-se que as estruturas com controlo de sujeito em verbos ditransitivos manifestem efeitos de intervenção paralelos aos que se encontram em relativas de objeto, e, portanto, esperam-se assimetrias paralelas entre relativas e controlo. No entanto, se controlo não for movimento, não se esperam efeitos de intervenção paralelos entre controlo de sujeito e relativas de objeto. De acordo com esta perspetiva, os dados de processamento podem informar o debate sobre a natureza sintática de controlo.